2013 vs 2015: comparações e manipulações inevitáveis

Março apenas acabou e já entra para a história recente do Brasil como marco temporal da polarização das forças políticas, partidárias ou não, em todo o território brasileiro. Pensar na frase “acabou o amor”, exaustivamente repetida no contexto político de 2013, talvez seja pouco para explicar as relações estabelecidas, fortalecidas e/ou criadas a partir de agora. Para isso, será necessário compreendermos as diferentes nuances de cada região, seus gritos e lutas (antes, durante e após 2013) para começarmos a traçar um perfil real da insatisfação que parece assombrar o país. Um dos pontos que podemos abordar, ao menos nessa pequena análise, é a inevitável e manipuladora comparação que tem sido feita entre os levantes de 2013 e o atual momento de mobilizações.

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O primeiro ponto que deve ficar esclarecido é a necessária desconstrução do mito da espontaneidade em ambos os tempos e contextos sócio-políticos. Se por um lado a luta contra a mercantilização do transporte público já vem sendo construída por movimentos autônomos, tais como o Movimento Passe Livre, e coletivos da esquerda (partidária ou não) há mais de 10 anos, pelo outro não dá para negarmos que as mobilizações recentes, em especial a do 15 de Março, foram financiadas e amplamente divulgadas por grupos empresariais que exercem o monopólio da comunicação no Brasil (ok Globo?!) além de planejadas e executadas por movimentos políticos e atores sociais que variam dos meros apoiadores/eleitores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) até componentes radicais da ultradireita, muitos destes sádicos saudosistas da ditadura militar e defensores de uma nova intervenção das forças armadas no cenário político atual.

No que concerne à 2013, a “revolta do vinagre” teve seu apogeu na autodefesa libertária contra a violência policial, diante da incapacidade da imprensa em conseguir manter a população favorável à repressão policial (com destaque inicial para São Paulo e depois para o Rio de Janeiro). Porém, antes das bandeiras negras agitarem o ar novamente, como há muito não se via, em intensas noites de confrontos e barricadas ou antes mesmo do primeiro molotov voar na direção de alguma tropa do choque durante as jornadas de Junho, devemos lembrar que a pauta do transporte público já estava sendo debatida pela população, principalmente pelas classes mais pobres e que dependiam diariamente do transporte público para ter acesso à cidade.

No início de 2012, o Rio de Janeiro registrou os primeiros atos contra o aumento da tarifa na capital, na época duramente reprimidos pela polícia militar, apesar da baixa adesão da população. No mesmo ano é criado o Fórum de Lutas Contra o Aumento das Passagens na cidade, que tinha por objetivo reunir movimentos e coletivos da esquerda para organizar respostas, nas ruas, contra o anúncio de aumento nas tarifas do transporte público. Paralelo a este fato, que obrigou o prefeito do Rio (Eduardo Paes) a adiar o aumento para 2013, o movimento Revolta do Busão ganhava força e adesão, também em 2012, na luta contra o aumento das tarifas em Natal, Rio Grande do Norte, onde o aumento também havia sido revogado. O próprio início de 2013 já estava sendo rodeado de pequenas, porém fortes, manifestações públicas em Porto Alegre, inspirados na luta contra o aumento das passagens. Em resumo, esse pequeno histórico ressalta dois fatos importantíssimos sobre 2013 e propositalmente omitidos pela mesma imprensa e movimentos de centro-direita que hoje convocam atos em prol de seus interesses econômicos obscuros: já havia mobilizações da esquerda (partidária e não-partidária) e de movimentos autônomos/libertários propagando a luta contra a tarifa por todo o Brasil; a imprensa monopolista sabia disso e já fazia ampla campanha difamatória dessas iniciativas, principalmente os veículos de comunicação com forte interesse econômico nas grandes capitais cujos governos fortaleciam políticas gentrificadoras, dentre elas o próprio aumento das tarifas do transporte público.

O segundo ponto que também precisa ser considerado se quisermos ter melhores análises sobre o atual contexto é a reafirmação da presença de movimentos e indivíduos de centro-direita e da ultradireita radical durante o processo de revolta popular em Junho daquele ano.

Quando a imprensa empresarial percebeu que não conseguiria deter a fúria popular crescente nas ruas de todo o país, em especial no Rio de Janeiro, resolveu tentar cooptar as movimentações nas ruas para apoiar pautas que lhes eram caras. E assim, após dias de intensos confrontos contra as forças de repressão policial e a oxigenação de pautas, coletivos e movimentos libertários/autônomos por todos o país, a esquerda partidária e não-partidária, principalmente aqueles da base aliada do governo petista, viu nas ruas as primeiras campanhas anticorrupção, pedidos de impeachment, intervenção militar e traços claros de reivindicações oposicionistas. Mesmo sabendo que estes traços de cooptação por parte da direita ainda estavam tímidos (e não podemos esquecer que o apoio midiático às tentativas era o mesmo para ambos os períodos de tempo) a esquerda governista, defensora do Estado e do Capital, logo tratou de mudar o tom de diálogo para o tom de repressão e perseguição política declarada. Pôs no mesmo balaio esses mesmos traços protofascistas, uma presunçosa direita organizada e movimentos/coletivos/táticas autônomas e libertárias, dentre estas sendo a tática Black Bloc a mais criminalizada por todos os lados. Passado o levante de Junho, a esquerda governista, através de seus movimentos e centrais sindicais, tratou de rechaçar qualquer tentativa de propaganda libertária contra a democracia representativa, acusando-nos de fazermos parte da mesma direita que dias antes tentou cooptar as revoltas de Junho e, mesmo não logrando êxito, esteve presente nas ruas e hoje apavora os alicerces que governam o país. Ou seja, se hoje essa mesma esquerda governista vê na crescente organização da direita uma ameaça à sua tão preciosa democracia representativa deve, com toda certeza, certificar-se de apontar seus dedos incriminadores para si pela tamanha falta de capacidade e vontade política em compreender a real voz que emanou das ruas e permitir que até ideais ultrarradicais fossem propagados sem a perspectiva de criar um debate político real com a população.

Por fim, um terceiro ponto, e de fundamental importância, é a compreensão do papel que as empresas de comunicação exercem na política e na economia brasileira. Desde que Assange vazou dados, através do Wikileaks, revelando encontros de jornalistas brasileiros com representantes do governo norte-americano, sabe-se abertamente da inclinação política e econômica da imprensa perante qualquer manifestação pública que vá contra as ações do governo petista. Não é novidade para muitos, por exemplo, do apoio dado pela Rede Globo à ditadura militar, sob a mesma roupagem de “defesa da democracia” utilizada amplamente em suas coberturas atualmente, em tempos de crise política e econômica. Na era da informação, é imprescindível não deixar de acompanhar o jogo político mantido pela farsa eleitoral sob olhar da grande imprensa. Afinal, é ela quem monopoliza a comunicação num país onde o acesso à informação ainda não é universal. Para empresas como Rede Globo, Record, Bandeirantes, SBT e tantas outras, é muito mais economicamente favorável um governo que aprofunde políticas de austeridade fiscal e dê ao setor privado mais poder de controle que um governo que ora age como intervencionista ora age como liberal às avessas.

Em 2015 há os mesmos indivíduos e revoltas que em 2013? Acreditamos que não. Para nós, 2013 já encerrou seu ciclo e, passado o ano dos espetáculos que foi 2014, é chegada a hora de não mais esconder a convulsão do capitalismo global e suas consequências diretas na economia brasileira. Se o dia 13 de Março foi a prova cabal de como a esquerda partidária e não-partidária aliada ao governo ainda não compreendeu as vozes que emanam das classes mais pobres em cada canto nesse país, em especial as vozes das periferias que vivem com ocupações militares e uma intensa política de extermínio da população negra, o dia 15 foi uma demonstração de como essa imbecilidade pode ser arriscada. Ainda que num país com mais de 200 milhões de pessoas, menos de 2 milhões em todo seu território tivesse ido às ruas no dia 15, concordando, em sua maioria, com as claras convocatórias nacionalistas à direita, não devemos negar o poder que a imprensa ainda exerce sobre a população. Não devemos esquecer que, até 2 ou 3 semanas atrás, impeachment era assunto restrito aos debates vazios do Facebook, com algumas imagens que apelavam para o fascismo disfarçado de bom humor. E, quase que numa perfeita sincronia (perfeita até demais!) assim que o procurador da república liberou a lista de políticos investigados da polícia federal, a pauta passou a observar as “grandes” manifestações que foram programadas para o último domingo. A cereja do bolo foi a clara tentativa de associar esse “levante” aos levantes de 2013, com a capital diferença de que agora o “povo” clama pela saída do PT e, em casos mais extremos, a intervenção militar.

Concluímos alertando que essa força de manipulação por parte dos que controlam a informação no Brasil não deve ser ignorada porque estamos vivendo um processo de aprofundamento da crise política, econômica e social no país. Certamente, 2015 será o ano em que a austeridade não mais poderá ser escondida sob o capuz da “marolinha” e a partir de agora a precarização da vida associada à um aumento na repressão policial contra qualquer levante popular torna-se fato inalterável. A realidade que periferias e favelas já vivem poderão ficar piores e, a partir de agora, a classe média, principalmente os que ascenderam à ela nos últimos anos, irá sofrer as verdadeiras consequências da convulsão global em torno do capitalismo. Nesse cenário, onde temos desde cortes orçamentários da ordem de bilhões de reais até a crise hídrica e energética instalada em todo o país, será mais que necessário irmos às ruas para lutar contra todas as medidas que cortam gastos públicos em prol de banqueiros e financiadores de campanhas eleitorais. E é exatamente isso o que movimentos organizados da direita e ultradireita aguardam para, com apoio irrestrito da imprensa, tentar lograr êxito na imposição de suas pautas.

Se nós, anarquistas, autônomos, defensores de uma realidade possível fora desse jogo sujo das representatividades queremos estar ativos nesse processo de lutas, é preciso assimilar e praticar, com urgência, a construção de espaços verdadeiramente libertários espalhados por todo o país. Precisaremos focar na contrainformação e na perspectiva de que existe algo além do velho jogo de cartas marcadas entre esquerda partidária e direita e/ou da implantação de regimes militares, para ambos os lados. Não podemos ficar alheios à difícil situação que se apressa em configurar-se por todo o país, sob o risco de sermos engolidos por pautas que em nada contemplam nossos ideais libertários.

Paz entre nós, guerra aos donos do mundo!

Saúde e anarquia!

Seguem alguns links de mídias alternativas como exemplo:

Mundo: https://www.indymedia.org/or/index.shtml

Brasil: http://noticiasanarquistas.noblogs.org ; http://redeinfoa.noblogs.org

Itália: http://radioblackout.org ; http://www.umanitanova.org

França: http://www.monde-libertaire.fr

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