Sobre “Anarquismo e mudança social” de Gaetano Manfredonia*.

René Berthier

O que segue é um trecho de um trabalho maior, em fase de elaboração, dedicado a uma reflexão crítica sobre o livro de Michael Schmidt e Lucien van der Walt, Black Flame [1], com o qual eu tenho uma série de divergências profundas sobre o método. Black Flame certamente continuará a ser um livro de referência pela quantidade surpreendente de informações nele contidas. No entanto, os autores usam uma série de conceitos que considero altamente questionáveis – Broad Anarchist Tradition [2], por exemplo; eles também fazem amálgamas que são contrárias à realidade histórica (a ideia de que o sindicalismo seria uma “estratégia” do anarquismo). Estes são pontos que irei desenvolver em profundidade noutro trabalho dedicado especificamente a estes conceitos.

“Anarquismo e Mudança Social”de Gaetano Manfredonia Acredito que a maneira como Black Flame aborda a história do movimento anarquista e a doutrina anarquista está equivocada. Mas neste texto não pretendo refutar as teses de Michael Schmidt e Lucien van der Walt; só quero mostrar que os dois autores sul­africanos valeram­se da leitura de um livro de Gaetano  Manfredonia, Anarchisme et changement social: Insurrectionalisme, syndicalisme, éducationnisme­réalisateur [3], publicado dois anos antes. Este livro fornece soluções extremamente convincentes aos impasses metodológicos com os quais os dois autores estão comprometidos. Reconheço que a questão da língua é um problema real para a difusão de ideias, e o movimento anarquista é o primeiro a sofrer com esta deficiência. Um livro como Black Flame, que podia aspirar a tornar­se um livro de referência do movimento libertário para as gerações futuras é, infelizmente, afectado por uma grande desvantagem: seus autores reconhecem (página 26 do seu livro) que eles têm   recorrido   quase   exclusivamente   a   fontes  anglo­ ­saxónicas!!! Uma tal limitação de fontes os priva das aquisições das obras de muitos autores que escreveram em francês durante os últimos vinte anos – para não mencionar as obras em Espanhol ou Português. Uma circunstância muito relevante.

Manfredonia é actualmente um dos historiadores do anarquismo mais famosos em França. Infelizmente ele publicou pouco, mas seus livros são sempre de uma clareza e precisão que fazem o deleite dos leitores. Seu livro torna obsoletas todas as tipologias com as quais, ainda hoje, tentamos encontrar uma coerência e estabelecer uma “classificação”  inteligível  nas  muitas  correntes  que    se  reivindicam do anarquismo. O primeiro que falou de “síntese” foi Voline, quatro anos antes de Sébastien Faure. A “síntese” de Voline, que foi desenvolvida pela primeira vez em 1924 [4] foi uma das primeiras tentativas de “classificação”, seguida de perto pela “plataforma” de Arshinov (1926) e a “síntese” de Sébastien Faure (1928). Mas se ambas “sínteses” referem­se aos conceitos do individualismo, do comunismo e do sindicalismo, elas realmente não têm nada em comum. Voline não baseou a sua (primeira) síntese sobre a coexistência de três correntes diferentes e   separadas.

O texto que Voline escreveu em 1924, “Da síntese”,  é pouco conhecido, pois após a publicação da Plataforma Arshinov em 1926, Voline juntou­se a Sébastien Faure na sua oposição à Plataforma e colaborou com ele na escrita de outra “síntese” em 1928, cujo significado é totalmente diferente do texto de 1924. Dessa forma a primeira versão de Voline permaneceu oculta. Como Makhno e Arshinov, Voline estava ciente dos limites do movimento anarquista da época e queria mudá­lo. Voline, Makhno e Arshinov compartilhavam a mesma ideia inicial: a necessidade de unificar o movimento anarquista, que se encontrava dividido e parecia ineficaz. A diferença estava no método para realizar a unidade. Os “Plataformistas” consideravam que só o anarco­comunismo era o movimento anarquista. Para eles, o individualismo era uma ideologia burguesa e o anarco­sindicalismo não chegava a ser uma doutrina, era na verdade um simples método de ação. Voline afirma no seu texto de 1924 que a unidade poderia ser conseguida através de um esforço de esclarecimento teórico envolvendo uma reflexão colectiva entre todas as tendências do movimento libertário. Em 1924, Voline não propunha colocar lado a lado as correntes sindicalista, comunista libertária  e individualista. Tratava­se de definir as principais ideias do anarquismo: o princípio sindicalista como “método de revolução social”, o princípio comunista como “organização básica da nova sociedade em formação” e o princípio individualista, isto é, “a emancipação total e felicidade do indivíduo é o verdadeiro objectivo da revolução social e   da nova sociedade”. Voline não contemplou o “anarquismo individualista” como uma corrente específica do movimento anarquista, mas a emancipação do indivíduo como objectivo da revolução social. Não é de todo a mesma coisa. Ao contrário de S. Faure, Voline não queria que os diferentes ramos do anarquismo vivessem lado a lado por um tempo indeterminado. Ele acreditava que depois de um debate, eles se fundiriam em algo diferente e superior – que é precisamente o significado de uma “síntese”.

Na síntese  de Voline, havia algo dinâmico, as coisas tinham que mudar. Em contraste, quando Sébastien Faure publicou “La Synthèse anarchiste”, em 1928, ele desenvolveu uma visão muito estática, defendendo a simples coexistência de diferentes correntes do anarquismo. É esta versão do “sintesismo”, a de S. Faure, que prevaleceu, mas, estri­ tamente falando, não é uma síntese. Enquanto a primeira síntese de Voline não é incompatível com o conteúdo da Plataforma, a síntese de S. Faure é absolu­tamente irreconciliável. Na realidade, não há nenhuma síntese na proposta de Faure: uma síntese, por definição, implicaria que os vários elementos que a compõem, através das suas interacções, formariam uma realidade nova. Este não é o caso em Faure. Na verdade, ele formulou pela primeira vez o anarquismo na coabitação de três correntes: individualista, comunista e sindicalista. Com Faure, a “síntese” é simplesmente composta de três componentes diferentes, sem interacção: a sobrevivência da “síntese” depende só da “coexistência pacífica” das suas componentes, e não em ultrapassar as suas contradições. Há uma certa ironia nessa história. Na verdade, houve em Paris em 1913 um importante congresso anarquista para criar (finalmente!) uma organização unificada nacionalmente. Neste congresso, Faure declarou firmemente que o individualismo era incompatível com o anarquismo e exigiu a expulsão dos individualistas do Congresso. Portanto, o mesmo S. Faure que expulsou os individualistas pela porta em 1913, reintroduziu­os pela janela quinze anos mais tarde, na sua “Síntese”. Há uma explicação perfeitamente racional para essa aparente inconsistência. Na verdade, Sébastien Faure tinha tomado uma posição firme contra a guerra que eclodiu logo depois, e colaborou activamente com os individualistas, que em geral tiveram uma atitude irrepreensível sobre esta questão. Se a síntese de Sébastien Faure pretende aproximar elementos  dispersos  do  anarquismo,  Arshinov  e  os co­­autores da Plataforma tendem a dissociar do anarquismo os elementos que, segundo eles, não lhe pertencem. A tipologia introduzida pelo S. Faure respondeu a um espírito de conciliação no contexto polémico da época; não era realmente uma abordagem objectiva. Foi uma resposta à Plataforma de Makhno e Arshinov que queria restaurar o anarquismo a partir da experiência da Revolução   Russa.

“Apesar das expectativas dos seus promotores, o debate da plataforma/síntese não contribuiu para a realização da unidade do movimento, mas aumentou ainda mais a confusão nas fileiras libertárias e, portanto, em última análise, impediu a revisão necessária das posições anarquistas tradicionais, como a situação o exigia.”   [5]

Manfredonia acrescenta que esquecemos que estavam envolvidas apenas duas opções, entre outras. Como um resultado deste esquecimento, o debate tinha congelado, causando uma ruptura no movimento anarquista francês, uma “crise que nunca foi realmente superada ainda hoje e cuja confusão organizacional e ideológica da Federação Anarquista, uma espécie de monstro híbrido meio­sintesista meio­plataformista, é o exemplo mais marcante” [6]. Lembro que Manfredonia foi muito tempo uma figura proeminente da Federação Anarquista… “Em França o debate tinha diminuído na década de 1990. René Berthier ou Gaetano Manfredonia  propuseram  abordagens  desapaixonadas à questão [7]. Na verdade, a muito sintesista Federação Anarquista (FA) encontra­se afastada do catecismo de Sébastien Faure. A União de Trabalhadores Comunistas Libertários (UTCL), constituída em 1976, por sua vez, tinha rapidamente evoluído para uma superação da Plataforma que reteve mais o espírito do que a letra – a Alternativa Libertária está nesta continuidade [8].”

No entanto, após a publicação da Plataforma de Arshinov em 1926, à qual Voline se opõe, ele abandona sua visão original de uma síntese “dinâmica”, e participa, com Sébastien Faure, para desenvolver uma síntese estática, que continuará a ser conhecida hoje. A “Plataforma de Arshinov” tenta encontrar uma coerência no anarquismo ao refutar a qualificação anarquista a algumas correntes ou a certas sensibilidades: uma atitude que também é encontrada em Black Flame. Para Michael Schmidt e Lucien van der Walt, o anarquismo é constituído através de duas correntes: o insurreccionalismo e o anarquismo de massas. Os autores reconhecem que   a primeira é extremamente minoritária. O anarquismo de massa representa a maior parte do movimento libertário; infelizmente, a definição dada a esta corrente é extremamente vaga e imprecisa, e encoraja confusões. Os autores de Black Flame não reconhecem que o individualismo é uma corrente anarquista, embora muitos insurreccionalistas se chamassem individualistas e vice­versa: individualismo e insurreccionalismo são duas correntes muito intimamente ligadas. Assumindo que o insurreccionalismo é uma corrente do anarquismo, não há nenhuma razão para recusar esta qualificação ao individualismo. A abordagem de Manfredonia supera essa contradição. Ele oferece tipologias que não são rígidas e que também evitam todas as confusões geradas pelo conceito de “Broad Anarchist Tradition” ao qual recorre Black Flame, permitindo categorizações muito mais precisas. Baseando­se na “sociologia compreensiva” de Weber, Manfredonia considera que é necessário “romper com as interpretações usuais do anarquismo, todas as que enfatizam a história das ideias ou dos movimentos”; e propõe concentrar­se resolutamente no estudo das práticas militantes. Com base neste método, define três “tipos ideais” de activismo libertário: o tipo insurreccional, o tipo sindicalista e o tipo educacionista­realizador. Esta nova tipologia é muito mais relevante do que a “grelha de leitura” que foi definida pelo Faure em 1928 na síntese anarquista, e que foi a origem de muitos clichés… ainda que nenhum historiador sério tenha usado esta categorização. Para reforço de sua tese, Manfredonia observou que muitos insurreccionalistas eram também educadores e sustentavam que as massas deviam ser educadas. Assim, nós não pertencemos a uma categoria fixa e imutável; podemos pertencer a várias categorias em graus variáveis de acordo com o tempo e as circunstâncias. O livro de Manfredonia oferece uma leitura que supera o antagonismo Plataforma/Síntese: ele não congela as várias formas de anarquismo em “caixas” rígidas. Insurreccionalismo, sindicalismo ou educacionismo­ ­realizador não são tipos que se opõem, mas tipos que podem suceder­se um ao outro cronologicamente ou que podem coexistir em combinações variadas, dependendo das necessidades e do contexto político e social. Ainda segundo ele, o movimento anarquista francês antes de 1914 teria experimentado uma fase insurreccionalista inicial (1878­1886), uma reorientação “sindicalista” em 1888, um breve retorno ao insurreccionalismo com os ataques de 1892­1894, em seguida, a instalação final na visão sindicalista, pontuada por breves surtos de insurgência quando os conflitos sociais fossem prementes. Nesta sucessão, é o mesmo movimento libertário que adoptou atitudes diferentes (“estratégias”), diriam Michael Schmidt e Lucien van der Walt) adaptadas às circunstâncias e para as necessidades do momento. A passagem por essas fases não teria impedido a permanência à margem, de uma corrente educador­realizador em que se pode incluir os individualistas, os cooperativistas e vários humanistas relutantes à ideia de revolução e ligados a uma visão “gradualista” de transformação social. Mas encerrar o anarquismo em duas gavetas ou três não muda o facto de que ele foi cristalizado em categorias que na verdade não traduzem a realidade necessariamente flutuante e complexa.

  • A síntese de Faure não foi baseada em qualquer coisa objectiva, foi baseada em considerações de ordem táctica, num momento em que era necessário, disse ele, bloquear a plataforma de
  • O ponto de vista da Black Flame limita artificialmente o movimento libertário em duas correntes, uma numeri­ camente insignificante, cujo único registo é ter feito acções espectaculares, cujo recorde em termos de emancipação é discutível; a outra corrente (o “anarquismo de massa”)    é artificialmente insuflado através da atribuição abusiva   da qualidade anarquista a correntes ou indivíduos que não a reclamam, ou que a rejeitam, ou através de amálgamas que não iluminam a história do movimento libertário, mas que, ao invés criam confusão.

Manfredonia descreve “tipos ideais” que aparecem e se combinam em proporções variáveis, dependendo das circunstâncias e necessidades: o resultado é que o antagonismo entre sintesismo e plataformismo é ultrapassado. Portanto, pontes podem se formar entre um e outro tipo, conforme necessário, com nenhuma petrificação num compartimento selado. E sem que qualquer um desses tipos possa reivindicar representar o anarquismo. Esta abordagem revela uma consistência onde parecia haver alguma inconsistência. Vemos que nos “tipos ideais” de Manfredonia, o individualismo não é mencionado, ainda que este autor seja um especialista em anarquismo indivi­ dualista, de que fez uma tese de doutoramento! Os três “tipos  ideais” descritos por Manfredonia, e suas diferentes variações e combinações, são de algum modo as diferentes estratégias possíveis do anarquismo adaptadas às circunstâncias que as tornam necessárias. Portanto, não estamos presos em compartimentos onde cada qual afirma que só a insurreição, só o sindicalismo ou só a educação pode alcançar a emancipação: a estratégia adoptada pelo movimento anarquista pode referir­se, dependendo das circunstâncias, a um ou mais destes ideais­tipos e em graus variados. A questão do individualismo, de que alguns autores desafiam a adesão ao anarquismo, mas de que não se pode negar a existência, historicamente falando, é de alguma forma “resolvida” pelo seu “rebaixamento” em tipo “educador”, em que aparece como elemento marginal. Schmidt­van der Walt poderia aceitar a tipologia de Manfredonia, mas não o seu argumento de que o anarquismo remonta a 1830­1850, com Godwin, entre outros. Sobre este ponto, estou de acordo com Schmidt­ van der Walt, Godwin não pode ser descrito como um anarquista, estritamente falando. Mas como Manfredonia, eu acho que não pode ser descartada de uma séria reflexão sobre a génese do anarquismo: a qualidade de precursor poderia ser um bom compromisso. Manfredonia disse que o conceito de anarquismo “deve ser considerado como incluindo realidades muito mais amplas que as manifestações dos movimentos anarquistas definindo­se como tal.” Mas ele acrescenta que “fazer coincidir o nascimento do anarquismo como uma corrente política e social em si, com a formação de uma doutrina ou um movimento anarquista “específico” imediatamente depois da Comuna – como foi o caso até agora entre a maioria dos historiadores e activistas – é dar uma definição extremamente redutora desta corrente “. Os autores da Black Flame limitam o anarquismo na forma que adquiriu com o surgimento do movimento operário: o anarquismo é uma doutrina e um movimento especificamente proletário. Enquanto Michael Schmidt e Lucien van der Walt tendem a abordar a definição do anarquismo com uma visão restritiva, excluindo número de autores e correntes tradicionalmente ligados a esta corrente, Manfredonia tem uma visão abrangente: disse que o conceito de anarquismo “deve ser considerado como englobando realidades muito mais amplas que as manifestações de movimentos anarquistas que se definem como tal.” Portanto, temos duas abordagens totalmente diferentes.

Não partilho a abordagem inclusiva de Manfredonia: eu acho que o anarquismo continua a ser uma doutrina política e social que implementa uma prática colectiva, o que exclui “personalidades libertárias” que Manfredonia considera “interessantes”, mas cujo único defeito foi de “afirmar que as mudanças desejadas para alcançar uma sociedade anarquista poderiam ser conseguidas, apelando para os melhores interesses dos indivíduos sem a necessidade nem de converter anteriormente as massas para as ideias libertárias, nem de organizar os anarquistas em partido para empurrar o povo à revolução”. De um ponto de vista, concordo, portanto, com Michael Schmidt e Lucien van der Walt, enquanto não compartilho sua maneira um pouco rígida  de considerar o anarquismo como uma teoria unicamente “proletária”. Na verdade, as diferentes abordagens para considerar a mudança social não podem, como diz Manfredonia, “ser explicadas sem constantemente fazer referência aos modelos ou práticas que se afirmam ao mesmo tempo dentro dos movimentos sociais que levantam voo após o episódio da Revolução Francesa e da afirmação do  capitalismo industrial”.

Assim Manfredonia levanta a questão dos movimentos precursores do anarquismo e dos pensadores que foram pioneiros – uma questão que não é abordada em Black Flame. Referindo­se às principais figuras do movimento anarquista antes da Comuna, Manfredonia sustenta que: “as suas propostas só podem ser entendidas em relação às perguntas, tentativas, fracassos e esperanças que agitam ao mesmo tempo os movimentos sociais de seu tempo.” Não haveria, conforme Manfredonia, uma corrente sistematicamente pelas soluções violentas e uma corrente sistematicamente pelas soluções gradualistas. As soluções insurreccionais crescem quando uma perspectiva de curto prazo aparece; em seguida, desaparecem em favor de soluções gradualistas quando unicamente soluções a longo prazo parecem possíveis. Estas são as diferentes opções que são necessárias em diferentes contextos. O tipo ideal sindical, por exemplo, contém uma boa dose de visão insurreccional, a greve geral é percebida, desde  o início do movimento operário, como o equivalente da revolução social [9]. A partir desta perspectiva, a questão já não se coloca em termos de oposição sistemática entre diferentes estratégias do movimento, mas em termos de capacidade de redireccionar uma estratégia para outra, dependendo do contexto. Na realidade as coisas obviamente não ocorrem desta maneira: a maioria dos activistas adoptam uma estratégia e não estão dispostos a mudar: os insurreccionalistas permanecem insurreccionalistas, os gradualistas permanecem gradualistas, etc. Esta é provavelmente uma das causas da fraqueza do movimento libertário hoje.

A greve geral é a revolução social. Mas o sindicalismo também cai dentro do tipo ideal educacionista: a partir da Associação Internacional dos Trabalhadores e depois com o movimento sindicalista revolucionário, o sindicato é um grupo chamado a ser a base da reorganização da sociedade. É inegável que Fernand Pelloutier era um educador da classe trabalhadora, bem como um organizador. Além dos pressupostos metodológicos que nos permitem entender melhor o movimento libertário, Manfredonia oferece­nos, em conclusão, alguns elementos – infelizmente, demasiado curtos – que se dedicam a uma reflexão sobre o futuro do movimento. Lembra­nos Reclus, que disse que as revoluções foram o resultado de longos períodos de evolução e transformação das mentes [10]. Mas ele concluiu o seu discurso eminentemente gradualista com um apelo para a revolução: “Então, os grandes dias estão diante de nós. A mudança foi feita, a revolução não   tardará.”

Manfredonia teria podido citar a carta que Bakunin escreveu para Reclus pouco antes de sua morte: “actualmente a revolução voltou para a cama”, disse ele, “nós caímos  no período de evolução, isto é, nas revoluções subterrâneas, invisíveis e muitas vezes insensíveis”. Bakunin não se tornou de repente “reformista” ou gradualista: ele simples­ mente reconhece que a história tem ciclos e que o período que segue a derrota da França pela Prússia e o esmagamento da Comuna de Paris é um ciclo de retirada. Mas ele também disse que chegámos a um tempo em que os recursos, agora disponíveis para o Estado impedir uma revolução, são desproporcionais em relação àqueles que o proletariado lhe pode opor. Manfredonia está, portanto, correcto ao dizer na sua conclusão que “em geral, todos os activistas tendem a subestimar as capacidades de resistência do Estado ou da burguesia.” O autor do Anarchisme et changement social conclui com a observação de que o fracasso das visões insurreccionalistas e sindicalistas de mudança social em todo o século 20 não causou “o declínio irreversível do anarquismo.” A sobrevivência do anarquismo, disse ele, vem da “multiplicidade de práticas libertárias” que permitiram a esta corrente de “enfrentar os novos desafios colocados pela transformação das condições políticas e sociais nos países industrializados, sem perder a sua identidade”. A reserva que gostaria de formular com a conclusão do livro de Gaetano Manfredonia é que o autor parece tomar como certo que a solução gradualista unicamente permanece operacional hoje. É verdade que a constatação do facto  de que “a erosão de uma consciência de classe autónoma entre os trabalhadores” pode sugerir que esta opção gradualista é o único que restou no movimento libertário. Mas, precisamente, parece que o papel do movimento libertário é combater esta erosão, é recuperar o terreno perdido na consciência de classe do proletariado. Sabemos que não se pode deflagrar uma revolução em modo voluntarista: ela surge, simplesmente. O desenvolvimento massivo do que Manfredonia chamava as “práticas libertárias” poderia ser uma vantagem incontestável, no entanto, o maior ou menor grau de preparação de uma organização revolucionária e sua maior ou menor inserção nas lutas sociais pode fazer a diferença entre sucesso e   fracasso.

 

Gaetano Manfredonia Nascido em 1957, em Foggia, é historiador italiano do movimento operário e libertária na Itália e França. Titular de um doutorado em história contemporânea com uma tese de pós­graduação intitulado “O individualismo anarquista na França, 1880­1914”,   sob

a direção de Raoul Girardet (1984) e outra tese, também sob a direção de Girardet, intitulada “Estudos sobre o movimento anarquista na França”, Gaetano Manfredonia   é o autor de vários artigos científicos e livros sobre a história das correntes libertárias em Itália e França. Após a tese pioneira sobre Jean Maitron “O movimento anarquista na França”, Manfredonia renova a historiografia do movimento anarquista francês em particular cooperando no trabalho coletivo “História da esquerda”, ou por seu livro “Anarquismo e mudança social”. Neste último trabalho, depois de propor uma nova tipologie de anarquia, ele empreendeu uma releitura da história do movimento   anarquista.

 Obras • Libres! Toujours…: Anthologie de la chanson et de la poésie anarchistes du XIXe siècle, Lyon, Atelier de création libertaire, 2011, 181 p. • Anarchisme et changement social: Insurrectionnalisme, syndicalisme, éducationnisme­réalisateur, Lyon, Atelier de création libertaire, 2007, 347 p. • L’Anarchisme en Europe, Paris, Presses universitaires de France, 2001, 127 p. • La chanson anarchiste en France des origines à 1914: “Dansons la Ravachole!”, Paris, Éditions L’Harmattan, 1997, 445 p. • La lutte humaine: Luigi Fabbri, le mouvement anarchiste italien et la lutte contre le fascisme, Éditions du Monde libertaire, 1994, (ISBN 2­903013­26­8). • Avec Frank Mintz, René Berthier, Maurizio Antonioli, Jean­Christophe Angaut, Philippe Pelletier, Philippe Corcuff, Actualité de Bakounine 1814­ 2014, Éditions du Monde libertaire, 2014, (ISBN 9782915514568).

  • Histoire mondiale de l’anarchie, Éditions Textuel & Arte éditions, 2014, notice éditeur. • Aurélie Marcireau, L’histoire mondiale de l’Anarchie, LCP, 15 octobre 2014. Articles • “Le débat plate­forme ou synthèse”, in Voline, Itinéraire: une vie, une pensée, n° 13, 1996, 88 pages. • “De l’usage de la chanson politique: la production anarchiste d’avant 1914”, Cités, 3/2004, n°19, p. 43­53.

*original da revista Erava Rebelde n. 1 (Porto-Portugal): https://ervarebelde.noblogs.org/?p=167

(Quero agradecer a Ana da Palma [Portugal] e Alexandre Samis [Brasil] para a revisão do texto e pelas sugestões que fizeram.)

[1] AK Press, 2009.

[2) “Ampla tradição anarquista”

[3] Editions Atelier de création libertaire, 2007. (“Anarquismo e Mudança Social: insurgência, sindicalismo, educacionismo­realizador”). [4] Voline, “De la Synthèse”, La Revue Anarchiste, Mars­Mai 1924. [5] Gaetano Manfredonia, “Le débat plate­forme ou synthèse”, in Voline, Itinéraire : une vie, une pensée, no 13, 1996.

[6] Ibid.

[7] René Berthier, “À propos des 80 ans de la Révolution russe”, Le Monde libertaire, 18 décembre 1997.

[8] Guillaume Davranche : “1927 : Avec la Plate­forme, l’anarchisme tente la rénovation.” http ://www.alternativelibertaire.org/spip.php?article1596. [9] Um congresso convocado em 1893 pelas “bourses du travail” (assim, antes da fundação da CGT) adopta o princípio da greve geral e explicitamente reconhece que é equivalente a revolução. [10] “L’Évolution, la révolution et l’idéal anarchique” 1898, Paris, Stock, 1979.

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